posts recentes

arquivos

tags

participar

links

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011
Apontamentos sobre web-documentário / documentário interativo

Web-documentário

O termo web-documentário (“webdocumentary”) provem da convergência entre tecnologias web  e o género cinematográfico documentário. No entanto até à data parece não haver consenso no próprio termo (Gaudenzi 2009, Capítulo 4): “new media documentaries”, "webdocs", "docu-games", “cross-platform documentaries", "interactive documentaries" ou ainda “database documentaries” e “expanded documentaries” (Almeida & Alvelos 2010, p.124). 

Um webdocumentario, documentário interativo ou documentário multimédia surge então num lugar ambíguo, um lugar algures entre diferentes áreas do conhecimento, desde cinema, interactividade, video jogos, video arte nomeando apenas alguns, sendo que uma resposta concreta não residirá em nenhuma destas áreas isoladas umas das outras e este difere das formas mais tradicionais de Documentário cujos elementos visuais principais - vídeo, áudio, fotografia - são complementados pela aplicação de um conjunto de informações complementares multimédia. A capacidade hipermediática da Internet fornece aos documentaristas um meio único para criar produções não-lineares que combinam fotografia, texto, áudio, vídeo, animação, infografias, desenhos e acima de tudo a interatividade. (Almeida & Alvelos 2010, p.124)

Almeida e  Alvelos (2010, p124) defendem ainda que o web-documentário deverá centrar-se maioritariamente na imagem em movimento, porque esta assume o papel principal num documentário.  A incorporação de outros "media" é possível dadas as possibilidades associadas às tecnologias web, e em documentário é uma prática comum (fotografias, áudio, documentos) mas não deverá centrar-se nesses media mas sim nas imagens em movimento, desde o interface, ao conteúdo. A nível de implementação dever-se-á procurar uma estética de "fullscreen" (ecrã completo) para maior imersividade, tendo o áudio um factor determinante para um maior ou menor envolvimento. Por outro lado Gaudenzi (2010, Capítulo 1) aborda uma perspectiva mais abrangente para o documentário interativo, e que para o considerar como tal precisa de usar tecnologia digital de forma interativa (no sentido que é necessário envolver o utilizador através de algum tipo de interação), e é necessário mostrar a intenção do produto hipermédia se relacionar com o desejo de documentar de alguma forma o factual, eventos ou situações.

O web-documentário difere dos documentários lineares tradicionais através da integração destes recursos multimédia e pelo utilizador poder interagir e navegar por uma narrativa com não-linear. Gifreu (2010) aponta que o documentário tradicional é linear e remete o espectador a partir de um ponto de partida para um ponto de chegada (de A para B) e segue uma rota pré-estabelecida pelo autor. A autoria e controle sobre o discurso são limitados. No caso de um documentário interativo, o utilizador começa num ponto proposto pelo autor, ou disponível para escolha, e a partir daí depara-se com bifurcações e caminhos alternativos. A escolha final não é deixada com o autor, como no primeiro caso, mas para o utilizador, dando origem a diferentes histórias possíveis, ou pelo menos a interpretações mais diversificadas da narrativa consoante a ordem da escolha. Em comparação com uma narrativa linear, onde o destino da história é pré-determinado pelo cineasta, um web-documentário fornece ao utilizador a experiência de mover-se pela história através de grupos de informações fragmentados. A integração dos várias blocos de informação, design gráfico, imagens, títulos e sub-títulos, desempenham o papel de fornecer pistas visuais ao utilizador quanto à forma através da qual ele se deverá mover através do web-documentário. Existe então a possibilidade do utilizador explorar as componentes da história que lhe interessa mais. Assim sendo, a navegação ideal pelo conteúdo de um web-documentário deve permitir uma recepção não-linear. Contudo convém ter em atenção que a não-linearidade não tem obrigatoriamente de significar um excesso de aleatoriedade nas possibilidades de escolha, nem uma organização de ligações demasiado complexa ou em teia. Aliás deve-se optar pela simplicidade na navegação dando realce à continuidade e só depois à interatividade (Almeida & Alvelos 2010, p.125).

Mas será o ponto de vista do autor posto de parte ao conferir poder de escolha ao utilizador? A montagem passa para o lado do utilizador mas só até ao nível que o autor o permita. Enquanto produção audiovisual não descarta a composição de um guião anterior e de uma estrutura definida, o que acaba por determinar a abordagem do tema escolhido pelo documentarista. Enquanto produto hipermédia não descarta também que os caminhos de navegação disponíveis sejam previamente pensados pelos autores que desenharam o produto (Gregolin et Al 2002, p24). Esta concepção prévia direciona o utilizador a um fim pré-definido, sendo que a não linearidade incute e simula uma sensação de liberdade de navegação e exploração por parte do utilizador. O realizador transforma-se mais num construtor caminhos sobre um número finito de imagens, ao invés de um condutor.

No campo teórico fala-se de uma entrega completa ao utilizador para a construção da sua realidade e do seu próprio ponto de vista sobre as temáticas retratadas, e também no uso das potencialidades da web social para uma participação activa, até mesmo colaborações comunitárias na construção de um documentário interactivo mas isso ainda não acontece completamente apesar de já haver tentativas.

Actualmente o web-documentário, apesar de ter interfaces elaborados e algum grau de interatividade, ainda tem uma linha narrativa em que a base permanece fundamentalmente determinado pelo ponto de vista do autor e encontra-se ainda numa fase inicial de chegada ao grande público.

 

Bibliografia 

Gregolin, M., Sacrini,  M. & Tomba, R (2002). Web-documentário: Uma ferramenta pedagógica para o mundo contemporâneo. Trabalho de conclusão de curso desenvolvido sob orientação do professor Celso Bodstein, para obtenção do título de graduação do curso de Comunicação Social - Jornalismo da PUC - Campinas.

 

Almeida, A., & Alvelos, H. (2010). An Interactive Documentary Manifesto. In R. Aylett, M. Y. Lim, S. Louchart, P. Petta, & M. Riedl (Eds.), Interactive Storytelling (Vol. 6432, pp. 123-128). Berlin, Heidelberg: Springer Berlin Heidelberg.

 

Gifreu, A. (2011, May 21). The interactive multimedia documentary as a discourse on interactive non-fiction: for a proposal of the definition and categorisation of the emerging genre. Retrieved 16 December 2011, from http://www.upf.edu/hipertextnet/en/numero-9/interactive-multimedia.html

 

Gaudenzi, S. (2009), Interactive Documentary: towards an aesthetic of the multiple. Unpublished draft PhD thesis. Retrieved from: http://www.interactivedocumentary.net/

 




mais sobre mim

 

Dezembro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31